Epidemias ameaçam demanda do turismo corporativo no País

A publicidade negativa das epidemias (zika vírus, chikungunya e dengue) no exterior tem sido a tempestade perfeita para o segmento de turismo corporativo, que já enfrenta o impacto da redução de viagens no País e a insegurança do investidor internacional.
De acordo com a presidente do conselho executivo de viagens e eventos corporativos (Cevec) da FecomercioSP, Viviânne Martins, as empresas internacionais, sobretudo norte-americanas e europeias, têm áreas de gestão de risco que levam em consideração epidemias locais antes de enviar um executivo. “Em uma viagem de negócios, a companhia é responsável pelo funcionário e por isso atua com mais cautela”, aponta. Como exemplo, Viviânne cita um evento de negócios que ocorreu em fevereiro. “Tivemos muito questionamento de empresas sobre o vírus zika e também de palestrante preocupado”. No entanto, a executiva aponta que a queda entre 6% e 15% do faturamento esperada para o setor do turismo em 2016 não terá o zika como principal e único motivo. “É a soma de tudo o que está acontecendo no Brasil”, complementa. Nesta semana, publicações internacionais comentaram que o golfista de Fiji (Oceania) Vijay Singh não deverá participar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro este ano, por conta do zika vírus. A Libéria também comentou que pode não enviar seus jogadores ao mesmo evento, devido à epidemia. Além disso, nos Estados Unidos porta-vozes do governo têm pedido a mulheres grávidas que evitem viajar a zonas de incidência do vírus, como o Brasil.

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Informações corretas
Ainda segundo Viviânne, para acalmar os nervos no exterior a saída é com a promoção e a divulgação de informações corretas sobre o vírus, com dados que possam instruir sobre como evitar a doença e quais os riscos. “O zika vírus só é pior que a dengue para mulheres grávidas”, indica. Ela acredita que a divulgação deve ser feita, mas faltam dados sobre quais são as regiões mais preocupantes. Contudo, a promoção também tem se tornado desafio para o setor devido às mudanças políticas e falta de verba do governo. “Recentemente mudou o Ministro do Turismo e o presidente da Embratur”. Para medir o impacto no turismo corporativo, a entidade Association of Corporate Travel Executives (ACTE Global) tem realizado pesquisas com parceiros. “Isso mostra a preocupação com o problema”, indica. No segmento e lazer, a executiva da FecomercioSP aponta que os casos de cancelamentos e remarcações deverão ocorrer de forma mais pontual. “Não deve ter muito impacto no financeiro das empresas”, comenta. Para ela, apesar da dengue e da febre chikungunya, o zika tem sido a maior preocupação. “Ainda não há repercussão do H1N1”, diz. De acordo com pesquisa global realizada pela Ipsos, a doença tem preocupado 45% dos entrevistados no Oriente Médio e na África. Outros apreensivos com o vírus estão na região da Ásia-Pacífico, onde a proporção é de 43%. A América do Norte (34%) e a Europa (33%) estão entre os menos preocupados. A pesquisa indica que a epidemia pode ter impacto significativo no turismo da América Latina. Quatro em cada dez entrevistados estão menos propensos a viajar para a América do Sul.

Contraponto
Apesar de pesquisas indicarem o problema, empresas e entidades do setor evitam dizer que há quedas. O vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH – Nacional), Manoel Linhares, aponta que no estado do Ceará, onde atua, ainda não foram registrados cancelamentos de viagens por conta do zika. A expectativa é que até o final do ano as desmarcações sejam pontuais. “Não posso dizer que não vai haver, mas até agora não temos visto caso”. Questionado sobre outras áreas de grande incidência no País, como Pernambuco, ele conta que os hotéis têm tentado informar mais sobre os riscos e precauções que podem ser tomados nos locais como vestimenta, uso de repelente e até tipos de passeios. “Temos feito treinamentos com os funcionários dos hotéis para que nenhuma área tenha foco de mosquito”, explica. Para Linhares, se o desempenho financeiro dos hotéis retrair neste ano é mais pela instabilidade econômica e pressão dos custos do que pela doença. “O preço das diárias têm defasagem de pelo menos 20%”, diz. No Rio de Janeiro (RJ), a ABIH da região também afirmou ao DCI que os hotéis associados também não tiveram prejuízo econômico. “Até o momento, não houve impacto direto, uma vez que não foram registrados cancelamentos ou adiamentos com esta motivação”, ressaltou o presidente da entidade, Alfredo Lopes. As redes associadas ao Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) também não registraram quedas nas taxas de ocupação dos hotéis que possam ser diretamente relacionadas à epidemia do zika e aponta que ainda não tem dados relativos à gripe H1N1. “OFOHB está atento quanto a possíveis informações das autoridades de saúde sobre o surto. Assim que elas forem disponibilizadas, as redes associadas receberão orientações sobre como agir”, afirma o presidente da entidade, Manuel Gama.

Percepção
O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagem de São Paulo (Abav-SP), Marcos Balsamão, também acredita que o cenário não deve agravar-se. “Não acredito que o turismo seja impactado pela epidemia em si”, indica. Segundo ele, em sondagem com empresas de turismo receptivo não houve indícios que de terão queda por esse motivo em 2016. As empresas de receptivo Luck, A3 Turismo e Receptivo e a 3R Tur também não sentiram queda de estrangeiros em suas operações. “Pelo contrário, tivemos crescimento de 30% neste ano no receptivo de Porto de Galinhas (PE), quando comparado com o período anterior”, diz a sócia-diretora da Luck, Sandra Lucia Luck. Na região, entre janeiro e fevereiro deste ano a empresária aponta a vinda 1 mil argentinos, o dobro do ano anterior. “Vemos a preocupação entre grávidas apenas”, ressalta. Em média, Sandra aponta que tem recebido 3 mil pessoas por final de semana. Em outros locais atendidos, como Rio Grande do Norte e Bahia, ela aponta que tem visto altas acima de 10%. Em Jericoacoara, a gerente geral da A3 Turismo e Receptivo, Vera Kayatt, também afirmou que a cidade continua recebendo um grande contingente de turistas estrangeiros. O sócio Thiago Rodrigo dos Santos, observou preocupação maior das pessoas no local. “Os turistas têm mais cuidado com lavar as mãos, por exemplo, por causa do H1N1”, disse.

Proliferação
Conforme levantamento do Ministério da Saúde, os casos prováveis de chikungunya atingiram no País entre janeiro e fevereiro deste ano 13.676 pessoas. O Nordeste contou com 11.170 casos. No Norte foram 1.108 casos, seguido de 769 no Sudeste, o Sul contabilizou 451. Por fim, a região Centro-Oeste teve 178 informações da doença. Nesse período, 22 unidades da Federação confirmaram o zika – sendo três casos de óbito.

Vivian Ito-São Paulo / DCI – Diário, Comércio Indústria & Serviços

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